Autor: Leif Johnson, Macworld (EUA)

Alto custo de dispositivos não ajuda consumidor. Neste ano, companhia lançou uma série de produtos, todos 20% mais caros

Apple acredita que a privacidade é um “direito humano fundamental”. O CEO da empresa, Tim Cook, condenou a onda de coleta de dados que ele viu dos concorrentes como “fora de controle”, e ele se preocupou que “a maioria das pessoas” não tem ideia de quantas vezes eles estão sendo rastreados.

Foram palavras que os usuários queriam ouvir, especialmente em uma década abalada pelo escândalo da Cambridge Analytica e violações de dados em empresas como Uber e Yahoo, para não mencionar o hábito do Google de vasculhar o Gmail para melhorar a navegação. Contra tal pano de fundo, a Apple parecia um cavaleiro de armadura de alumínio brilhante e escovado.

Mas também são palavras excessivamente ousadas em uma era que a Apple inflaciona seus preços ano a ano, levantando seus dispositivos e sua privacidade cada vez mais fora do alcance dos humildes orçamentos da maioria das pessoas. Além disso, os aumentos mais recentes chegaram a cerca de US$ 150 por produto em relação ao ano anterior. Estes aumentos de preços não são apenas dolorosos para a carteira; eles são dolorosos para quem entende que a privacidade é a única razão irrefutável para preferir os dispositivos da Apple sobre todos os outros.

Sim, o design da Apple é fantástico. Sim, o iPhone é um ótimo celular em geral. Mas hoje em dia é mais difícil destacar todos os recursos de um iPhone como superiores a um concorrente. O Google Pixel 3 tem uma câmera melhor, por exemplo, e vários telefones Android conseguem ter monitores sempre ativos sem devorar suas baterias. Aliás, os laptops Windows de baixa qualidade há muito tendem a fazer melhores trabalhos de rodar videogames do que os MacBooks high-end da Apple.

Mas privacidade? Ninguém pode competir com a Apple nisso. Repetidas vezes, isso significa negócios. O público em geral provavelmente conhece o melhor da famosa resistência da Apple ao desbloqueio de iPhones para o FBI, ou a maneira como a Apple armazenou apenas sua impressão digital Touch ID no próprio dispositivo. Mas vai muito mais fundo. A Apple agora inclui o software anti-impressão digital e o Intelligent Tracking Prevention tanto no iOS quanto no macOS, que impede que os coletores de dados rastreiem movimentos e manipulem dados.

Há, também, o File Vault 2 em todos os Macs, criptografando os arquivos. A Apple envia dados próprios, é claro, mas um estudo recente descobriu que a empresa coleta 10 vezes menos dados do que os dispositivos Android enviam para o Google, e mesmo assim, inclui proteções que impedem a Apple de saber que veio de um dispositivo em particular.

O preço da privacidade

O relatório trimestral mais recente da Apple revelou como o aumento dos preços dos dispositivos não estava realmente sendo positivo para o faturamento, mesmo em tempos em que as vendas do iPhone permaneciam estáveis.

A privacidade não é apenas a compra de gadgets caros que mantêm os dados pessoais seguros. É também sobre ser capaz de dirigir carros para trabalhar em vez de pegar ônibus. É sobre ter uma casa enorme com um sistema de segurança em vez de um apartamento apertado. A escolha pessoal influencia nesses arranjos às vezes, mas na maioria das vezes eles são decididos pela riqueza. E em uma época em que casas e carros são cada vez mais difíceis de serem comprados por jovens, a Apple parece inclinada a manter seus dispositivos de proteção à privacidade igualmente fora de alcance.

O problema intensifica conforme aumenta o investimento no ecossistema da Apple. Comprar não só um iPhone, mas um MacBook Pro, um iPad, um HomePod e outros acessórios significa gastar alguns milhares de dólares.

Existe esperança?

Se a Apple levasse a sério o acesso de todos à privacidade de dados, lançaria mais produtos voltados para compradores de baixo custo. Por outro lado, a empresa está tentando valores mais baixos em alguns produtos.

A empresa lançou um iPad de US$ 329 destinado a estudantes, que inclui até mesmo suporte para o Apple Pencil (que costumava ser limitado ao muito mais caro iPad Pro). Mais recentemente, lançou o iPhone XR, que saiu no mesmo ano do carro-chefe iPhone XS, mas custa US$ 250 a menos. Estes ainda são dispositivos caros, mas que sugerem uma Apple humilde – mas não tão humilde que considere atualizar um dispositivo como o iPhone SE.

É mais difícil ver tendências semelhantes com o novo MacBook Air. É um ótimo laptop, mas ainda é um laptop de US$ 1.200 e não é como um MacBook “de baixo custo”, conforme as pessoas esperavam. É provável que seja um “bom investimento”, mas o consumidor pode ficar tentado (e com um bom motivo) a comprar um Dell XPS 13 por US$ 899 ou um Asus Zenbook por US$ 749.

Fonte: IDG Now