Autor: Carla Matsu

Ex-agente da NSA participou de fórum de segurança da informação em transmissão ao vivo de Moscou. Para Snowden, vigilância é um sintoma de que democracias estão falhando

Blockchain, a tecnologia que sustenta criptomoedas como o bitcoin, tem sido testada em diferentes indústrias por aquilo que essencialmente a define. Tida como uma espécie de grande livro contábil,  a tecnologia permite transacionar valores de um emissor para um destinatário de forma descentralizada em uma cadeia de blocos, sendo cada um destes “trancado” por uma chave criptográfica. Seu caráter distribuído assegura que qualquer pessoa possa ter uma cópia desses registros em seu próprio computador, basicamente como funcionam os torrents. A indústria, de forma geral, reage animada com a perspectiva do chamado “protocolo da confiança”, mas na visão de Edward Snowden, o ex-analista de sistemas da NSA (Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos), o blockchain pode também nos reservar um futuro sombrio.

“É uma faca de dois gumes”, pondera Snowden durante transmissão ao vivo de Moscou, Rússia, exibida no 1º Fórum Segurança da Informação promovido pela revista Exame nessa ultima semana, em São Paulo. Snowden concorda que a promessa das aplicações do blockchain é enorme, uma vez que oferece a oportunidade de eliminar uma autoridade centralizadora para assegurar a idoneidade das transações. Porém, ao mesmo tempo, torna tais transações menos privadas e, por isso, em sua visão, arriscado.

“Quando você aplica o blockchain a uma identidade nacional [como um RG], como já vemos alguns lugares experimentarem, isso é amedrontador. Porque se começa a ter registros sobre você, de tudo o que você faz, a sua vida. Nunca poderá ser esquecido”, alerta. “Há algumas coisas na vida que a gente deve ter o direito de esquecer, para poder seguir adiante. Se criarmos um método perfeito para captar essa história, dentro do tipo de transação privada e anônima, pode ser algo fabuloso. Mas também pode criar um sistema de registro da sua vida, como um  Facebook, que nunca poderá ser  deletado e, para mim, isso não é algo emocionante, é perturbador”, completa.

Legado: a privacidade enquanto direito

Desde que as reportagens do The Guardian e do The Washington Post baseadas nas revelações de Snowden de que a NSA rastreava dados telefônicos de milhões de norte-americanos, não só a vida de Snowden mudou, mas governos e corporações também tiveram que dar respostas e, em consequência, reformas e novas leis sobre privacidade da informação se ergueram. As revelações podem até ter forçado um exílio que já dura cinco anos para Snowden, mas ele diz que não se arrepende. O trabalho que ele e cinco jornalistas fizeram para levantar a consciência pública sobre o tema da segurança da informação e privacidade fica como legado.

“Durante esse período, quando aprendemos cada vez mais sobre esse programa […], eu me preocupei se estávamos colocando nossas vidas em risco por nada”, relembra Snowden. “O público iria reagir com indiferença com a revelação de espionagem em massa, as pessoas se perguntariam ‘o que isso muda a minha vida?’ E, simplesmente por isso, se esqueceriam e seguiriam adiante. Quando eu penso em como eu estava errado”, diz Snowden entre risos. O ex-agente da NSA diz que muito não mudou, que há ainda espionagem e que corporações estão mais do que nunca envolvidas no registro massivo de dados. Mas reflete: “Cinco anos depois, estamos falando ainda mais. Pense, eu poderia ser empurrado de um prédio agora e a conversa ainda continuaria. Eu não importo mais. E isso é a melhor coisa que poderia ter acontecido. O conhecimento que construímos para o mundo e as vozes inconvenientes que não se calarão é uma fonte de satisfação pessoal, mas não é suficiente”, ressalta.

Sobre mudar o consentimento

Snowden cita os casos recentes de uso indevido de dados por empresas como o Facebook e Cambridge Analytica e Google. Nesta semana, a Reuters reportou que o Google foi processado nos EUA por rastrear seus usuários mesmo após o recurso Histórico de Localização do Google Maps ser desabilitado nos smartphones. 

Para Snowden, os desafios que estamos vivendo hoje acerca da privacidade são bem maiores do que aqueles vistos nos tempos em que trabalhava para a CIA, a agência de inteligência americana. O ex-agente da NSA lembra que para saber a localização de uma pessoa era um trabalho que exigia times que se revezavam em turnos, dentro e fora do escritório. Hoje, diz ele, a dinâmica foi invertida. “Uma pessoa sentada na frente de um monitor, rastreando enormes quantidades de dados com a precisão que nós não poderíamos imaginar uma geração atrás”, diz.

Em maio deste ano, entrou em vigor na União Europeia a Lei de Proteção Geral de Dados (GDPR, na sigla em inglês). Na última semana, no Brasil, uma lei semelhante também foi aprovada. Ambas definem regras e direitos no que diz respeito à proteção de dados nos países e mostram um avanço na esfera privada e pessoal. Empresas que não cumprirem as regras responderão a multas que podem chegar a 4% do faturamento.

Snowden critica a forma como grandes empresas de tecnologia estão lidando com a questão, dizendo que apenas mostrar um pop up sobre os termos de uso antes de se dar “ok” para usar um serviço não é sobre respeitar o espaço individual, mas sim, flexibilizar o consentimento.

“É isso o que as pessoas estão querendo mudar hoje. A estrutura de criar consenso e criar escolha. […] O espírito da proteção de dados é que você não pode exigir que as pessoas concordem com uma condição que não é necessária para o centro funcional do negócio, do aplicativo”, argumenta.

Democracias em perigo

Quando Snowden fala sobre vigilância em massa, ele sabe que também lida com interlocutores que, talvez, não vejam no ato um problema estrutural, intrínseco à dignidade humana, que há sempre alguém que dirá que a vigilância é utilizada por governos para proteger seus cidadãos do terrorismo. Entretanto, Snowden lembra, como visto em suas revelações em 2013, que a espionagem conduzida por governos visava, sobretudo, a exploração e influência econômica e política.

“Se a gente disser que privacidade não importa, porque eu não tenho nada a esconder, é a mesma coisa que dizer que eu não me importo com a liberdade de expressão porque eu não tenho nada a dizer. É ignorar porque nós temos direitos em primeiro lugar. […] Privacidade e direitos protegem nossas diferenças e hoje elas estão sob ameaça porque o sistema que nós não desenhamos apropriadamente reserva um futuro hostil”, diz Snowden.

“Mas agora estamos aqui, essas reformas estão dadas a nós, não tenham medo, estejam prontos. Porque se a minha história pode dizer qualquer coisa, é que você não pode salvar o mundo, mas você pode mudar, uma voz pode mudar tudo. Então olhe ao redor o que está acontecendo e deixe que a próxima voz a ser ouvida seja a sua”, finaliza o ex-agente da NSA, exilado há cinco anos na Rússia.

Fonte: IDG NOW!