Autora: Silvia Bassi

A cena é mais comum do que você imagina. Dona Rosângela, uma senhora simpática, está no setor de crediário da loja para parcelar suas compras de eletrodomésticos. Seu CPF e nome conferem na base de dados da Receita Federal e seu score de crédito está perfeito.

Só tem um problema: Dona Rosângela comprou em outra loja, com a mesma carinha simpática, mas ela se chamava Berenice. Seu nome e cpf também estavam em ordem na Receita Federal e conferiam com o documento apresentado. Dona Berenice nunca pagou o crediário. E Dona Rosângela também não vai pagar o novo crediário.

Onde está o erro? Acertou quem disse que era a foto. “O problema não é o CPF, mas o rosto de quem o está portando”, explica Plauto Diniz, diretor da Neti, empresa paulista especializada em soluções de biometria facial de missão crítica para área financeira.

“Os criminosos hoje já produzem documentos com papéis originais e usam CPFs, RGs e nomes verdadeiros sem problema de negativação de crédito. Mas substituem a foto do dono pela foto do fraudador”, diz o executivo.

Um dos produtos da Neti é o Certiface, sistema de biometria facial para detecção de fraudes em tempo real e usando recursos de cloud computing. O Certiface está ativo em 180 lojas de uma rede de varejo brasileira há dois anos, mapeia cerca de 20 mil rostos por mês, tem um banco de dados na nuvem com mais de 300 mil rostos e já digitalizou mais de 800 mil documentos, segundo Diniz

O segredo do Certiface é usar uma webcam comum na hora de fazer a aprovação do crédito. A atendente pede ao cliente os documentos e tira uma foto para acompanhar o cadastro, enviando a informação em tempo real para o banco de dados na nuvem.

A foto, nome e número de CPF associados a ela são comparados com a base de dados do Certiface. Se houver outra foto com um percentual alto de semelhança associada a um número diferente de CPF, ou se o mesmo número de CPF estiver associado a um rosto completamente diferente, um alerta é enviado imediatamente por SMS para o gerente da área de crédito e na tela a atendente vê as duas fotos para decidir o que fazer.

Usualmente, explica Diniz, a atendente pede ao cliente que apresente um outro documento ou comprovação de identidade. “Se ele realmente for o dono da identidade, certamente vai ter como comprovar. O fraudador, diante do pedido, disfarça, diz que esqueceu ou que vai ao banheiro e nunca mais volta”, garante.

Diniz explica que o sistema utiliza os padrões biométricos mundiais (normas ANSI/INCITS M1 e comitês técnicos ISO/IEC SC 37) para leitura, gravação e validação de dados das fotos. “Ao tirar a foto, o sistema orienta a atendente a posicionar a webcam de acordo com os padrões”, diz o executivo.

A Neti, que foi criada em Bebedouro, interior de São Paulo, está em ritmo de startup e recentemente transferiu sua sede para Sorocaba (SP) após receber um aporte de investimentos para ampliar suas soluções de biometria.

Diniz explica que a empresa escolheu se concentrar na biometria facial porque mesmo a impressão digital não é um identificador presente em 100% da população. “Entre 5% a 10% das pessoas no mundo não tem impressão digital, muitas vezes porque sua atividade profissional utiliza produtos que são abrasivos e gastam a pele dos dedos”, diz.

Em 2012, segundo a Serasa Experian, o Brasil teve um total de 2,14 milhões de fraudes. Para as empresas, o principal problema não é apenas o prejuízo do crediário não pago. “Para cada real perdido na fraude as empresas gastam mais 1,7 real com custas legais e processuais”, explica Diniz. O Certiface reduz a quantidade de processos, protege o verdadeiro dono dos documentos que teve sua identidade roubada e diminui as fraudes.

A Neti é parceira de negócios da Samsung e está lançando agora a versão mobile do Certiface, portada para Android e também para iOS. Como tudo funciona na nuvem e os smartphones têm câmeras poderosas, a aposta da empresa é oferecer o produto para outras aplicações de segurança ou para quiosques em shoppings, por exemplo.

Ah, para sua informação, a história da Dona Rosângela é verdadeira, mas na vida real ela não tinha apenas dois CPFs associados ao seu rosto, mas sim quatro diferentes sets de documentos mapeados pelo Certiface. E não conseguiu fazer a compra!

Fonte: Convergência Digital