Delegada Adriana Ribeiro revela necessidade de grupo de investigação específica
Delegada Adriana Ribeiro revela necessidade de grupo de investigação específica

A ausência de uma delegacia especializada e de policiais capacitados para a investigação de crimes cibernéticos dificulta o esclarecimento de delitos realizados na internet em Goiás. Por isso, os casos de vazamento ilegal de informações sigilosas devem ser encaminhados aos distritos policiais, que na maioria das vezes não apresentam profissionais qualificados para esse tipo de atuação.
Delegada titular da Delegacia Estadual de Investigação Criminal (Deic), Adriana Ribeiro ressalta a necessidade de profissionais especificamente treinados para autuar na investigação de crimes cibernéticos. “A pessoa tem de saber manusear a internet, mas os mecanismos de investigação são os mesmos.”

Algumas ocorrências são investigadas pela própria equipe da Deic, mas a delegada esclarece que a atenção é dividida também para outros casos, como estelionato e fraudes. Para que o trabalho aconteça da maneira recomendada, um grupo de investigação digital deve ser implantado na delegacia, mas ainda não há previsão para que isso aconteça.
Até hoje nenhum agente da Polícia Civil passou por cursos necessários para investigações digitais. Quando os casos são encaminhados aos distritos o andamento evolui de acordo com a habilidade da equipe. O presidente da Comissão de Direito Digital da Ordem dos Advogados dos Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), Tabajará Francisco Póvoa Neto, destaca a dificuldade de se caracterizar o crime devido à ausência da delegacia especializada. “É possível registrar a ocorrência, mas o inquérito demora muito”, assegura.

Para o advogado, quando o caso é distribuído para o distrito de competência do bairro, inicia-se o calvário da vítima. “Já houve casos em que o delegado afirma que o crime não aconteceu aqui, mas o crime na verdade aconteceu na rede mundial de computadores.” No entanto, deve ser investigado a partir da vítima. Póvoa acredita ainda que a ausência de aparato policial para esse tipo de caso desestimula a vítima a procurar a polícia. “O crime normalmente expõe a pessoa e a falta de saber a quem recorrer faz com que as pessoas desacreditem.” Ele ainda informou que há quase 120 dias a OAB-GO oficiou o secretário de Segurança Pública, Joaquim Mesquita, sobre a carência no setor, mas ainda não obteve nenhum retorno.

Sequestro de senhas para chantagens 

O especialista em segurança da informação e investigação de crimes eletrônicos Marcelo Lau afirma que os crimes que acontecem na internet vão além de um simples roubo de senha. Atualmente, uma nova modalidade de delito está ganhando espaço no mundo virtual. Conhecido como sequestro de senha, o hacker rouba a senha e chantageia o dono, seja ele apenas um usuário do Facebook ou dono de uma empresa de renome.

O criminoso pode se aproveitar de qualquer situação que vai além do roubo da senha, por exemplo, participar de uma reunião no seu lugar. A gente tem de pensar que o crime não é simplesmente a perda da senha. Os desdobramentos permitem a realização de diversos outros crimes.” Lau disse que a ameaça de postar conteúdos que possam vir a ser negativos ao perfil ou cliente está cada vez mais comum. “Senhas de empresários devem ser de conhecimento de um número restrito de pessoas e quanto mais cheia de detalhes melhor para garantir a segurança.”

Ele ainda esclarece que os empresários se atentam para a importância de garantir a segurança de sua rede apenas quando algum vazamento acontece. “Infelizmente a questão da consciência é despertada pelo susto. Ainda não temos uma cultura preventiva forte, pois atividades preventivas geram custos.” No entanto, mesmo com a contratação de uma equipe especializada para o controle dos dados, a segurança total não pode ser garantida. “Não existe nada 100% seguro, mas o que se espera é que as chances de algo errada acontecer tenha redução de 80%.”

Há três critérios estabelecidos para que uma empresa garanta sua segurança digital: adoção de tecnologia, processo de análise dos programas exclusivos, possibilitando avaliar quais são os riscos, disponibilidades, integridade e confiabilidade do sistema que mantêm informações sigilosas e, por último, a consciência do proprietário.

Investigação­ envolve quebra de sigilos

Aberta uma denúncia, o processo de investigação de crimes cibernéticos é considerado árduo pelo perito Walber Pinheiro, da PF. “O processo é complexo e envolve quebra de sigilo que pode demorar até dois meses.” Em razão disso, as investigações costumam se desenvolver durante anos. “A maioria dos trabalhos são iniciados a partir de denúncias dos bancos, podendo envolver outros bancos”, esclarece. Walber lembrou ainda o desenrolar de grandes operações em que foram realizadas diligências em Goiás, como Operação Barão e Cash Net, consideradas emblemáticas devido ao alcance do grupo e o envolvimento de hackers de vários Estados. Segundo o perito, a concentração de hackers em Goiânia aconteceu no início da década passada quando um funcionário de Furnas foi demitido e se mudou para a capital. “Ele vendia vírus para outras pessoas atuarem como hackers, com isso tinha participação em casos que geravam maior lucro”, disse. O especialista também distingue a atuação dos criminosos digitais. “Os crackers se diferenciam dos hackers, pois pegam vírus prontos e customizam para crimes. Os hackers, normalmente, não utilizam desse tipo de recurso para a ilegalidade, mas sim para demonstrar conhecimento.”

PF foca ação em fraudes bancárias 

Em Goiás, apenas roubo de senhas bancárias ou fraudes em transações financeiras em âmbito federativo são investigadas pela Polícia Federal (PF). O perito em crimes cibernéticos da PF em Goiás, Walber Pinheiro, garante que o roubo de senhas bancárias acontece com frequência no Estado. “Temos uma quantidade considerável de casos de roubos de senha e transações financeiras.”

Ele explica que a competência jurídica da PF está estabelecida em lei, por isso, as investigações são voltadas apenas para crimes em empresas federais, como Caixa Econômica Federal (CEF), além disso, há trabalhos voltados para o combate ao tráfico internacional de drogas e pornografia infantil na rede. No caso da CEF, a PF estabeleceu um operação contínua denominada Tentáculo, para impedir a atuação de hackers e consequentemente danos financeiros.
O perito considera que os sistemas de informática mais utilizados pela população são seguros. “O problema está entre a cadeira e o teclado”, opina Walber. Para ele, os usuários são os principais responsáveis pelo sucesso da atuação criminosa. “Os navegadores atuais são bem seguros, mas as pessoas são curiosas e clicam, por exemplo, em imagens de famosos com notícias inusitadas”, exemplifica.

Ele alerta ainda que o próprio sistema operacional do computador oferece uma segunda chance ao usuário. “Geralmente pergunta se quer realmente instalar um executável e, às vezes, a pessoa não presta atenção e aceita. Neste momento, hackers conseguem acesso a todas as informações da máquina, desde senha bancária a redes sociais”, disse. O especialista assegura que a atuação dos bandidos digitais evoluiu muito, assim como a segurança adotada pelos bancos. “Antigamente, quando eu dava palestras, recomendava as pessoas a não abrir e-mail de usuários desconhecidos. Hoje já falo para não abrir nenhum anexo, mesmo que seja de remetente amigo”, ressalta. A recomendação é de que a pessoa reenvie o e-mail para confirmar a segurança do conteúdo ou que ligue para o remetente antes de abrir.

A aquisição de um bom antivírus também é apontada com fator essencial para se garantir seguro do mundo do crime virtual. “De preferência compre um antivírus. A segunda recomendação é o bom senso. Não dá pra chegar na faculdade e acessar a conta do banco.”

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Fonte: Jornal, O Hoje